Arte e racismo no Brasil

Publicado: dezembro 27, 2015 em critica, história do presente, trocas textuais
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Caderno de Anotações – mal acompanhei o debate sobre a peça da companhia Os Fofos encenam, “A mulher do trem”. Por isso, anoto abaixo dois textos, de duas mulheres blogueiras/escritoras, Elaine Brum e Sthephanie Ribeiro, explicitam as críticas e o debate suscitado sobre cultura e racismo no Brasil. Debate intenso e muito bom. Gostei especialmente do texto de Brum, porque transcreve, comenta e reconstrói o debate ocorrido no Itaú Cultural por conta da suspensão da peça, além de tratar da questão dos privilégios dos brancos em meio à este problema histórico-social. O texto de Ribeiro é essencial porque explicita com radicalidade necessária a crítica ao racismo e ao privilégio dos brancos na cena cultural paulista.

–> “Negro não é piada pra branco: chega de fofura seletiva”

Sthefanie Ribeiro, Blogueiras Negras, 5 de maio de 2015

–> No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho.

Eliane Brum, El País, 25 de maio de 2015

Mas para ampliar mais ainda o debate, sobre o mesmo tema, Arte e Racismo no Brasil — o olhar sob privilégio dos brancos, Renata Felinto escreveu hoje (feicibuqui) um texto ótimo, cricando uma crítica escrita na Folha de São Paulo sobre a exposição em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, “Territórios: artistas afrodescendentes no acervo da Pinacoteca”. Veja texto de Felinto abaixo:

Quanta amargura e desconhecimento numa única matéria, que se quer uma crítica de arte, na “Folha de São Paulo Contra Cotas”. Aliás muito curiosa a opinião do autor do texto demonstrando total ignorância em relação a escassa bibliografia sobre a arte produzida por artistas negras e negros, cujas trajetórias e produções têm sido ostensivamente negligenciadas pela crítica (que nada tem, na atualidade, de especializada, quando nos referimos a esse assunto). O preconceito e gueto aos quais se referem o título foram criados por essa mesma crítica despreparada para fruir e dialogar com artistas afrodescendentes e suas tentativas, exitosas em muitos casos, em demonstrar plenos domínios de uma historiografia da arte ocidental e de seus meios de fatura, tanto abordando temas clássicos por meio de técnicas tradicionais quanto materiais e assuntos que revisitam estéticas inúmeras oriundas de África e reorganizadas aqui no Brasil. Desse ponto de vista, é mais que compreensível que a curadoria de “Territórios” tenha dado o panorama de artistas cujas obras estão no acervo da Pinacoteca do Estado, divididos em três eixos que buscam evidenciar esses esforços dos mesmos em estudar, praticar e dominar a forma como a Europa migrada para o Brasil nas Artes Visuais, dizia que deveria ser manipulada essa sabedoria a fim de dar visualidades às idéias. Num primeiro momento os cânones acadêmicos; num segundo o resgate e o conhecimento de uma matriz africana que tem relação direta com os Congressos Negros/ Africanos e com o Movimento Pan-Africanista; e, por fim, a contemporaneidade na qual os artistas falam de tudo e, sobretudo de si, de sua individualidade e coletividade afrodescendente e de como a nossa história mal contou a nossa história, o nosso protagonismo sempre impingido enquanto coadjuvante. Enquanto museus, críticos e historiadores do mundo todo se organizam para uma revisão na história da arte, não combinada, porém necessária e justa, que excluiu negros e negras, mulheres, homossexuais e mais um sem fim de humanidade, anacronicamente, o autor do texto preza e defende a arte feita por e para o homem branco hétero falando dele mesmo ou de um “Outro” (lugar que cabe aos negros), porque é dessa arte, desse lugar que ele escreve a “crítica”. Felizmente, a Pinacoteca do Estado é o museu brasileiro com mais obras de artistas afrodescendentes, eu fiz esse levantamento recentemente, e sim, demonstra em sua exposição composta somente por trabalhos manipulados e elaborados por eles que essas obras não deixam nada a dever ao domínio de uma tradição ao mesmo tempo em que conseguem extrapolá-la ao tocar em assuntos espinhosos de forma magistral. Os críticos de arte do Brasil precisam ver o que acontece fora do país, na Bienal de Veneza (2015), na qual o curador foi o africano nigeriano Okwui Enwezor que selecionou artistas de diferentes países africanos, para tratar de assuntos que dizem respeito ao mundo como o colonialismo e o pós, identidade, o racismo dentre outros, e na Bienal de Gotemburgo da Suécia (2015), com a curadora africano espanhola Elvira Dyangani Osé. É desleal e absurdo afirmar que ali há um gueto quando em exposições de artistas ítalo-brasileiros a mesma afirmação não é feita, ou mesmo quando somente há brancos de várias origem, porém brancos. A naturalização da exclusão dos não brancos que existe na nossa sociedade é reproduzida nos meios das Artes Visuais, por isso, temos coletivos como A Presença Negra idealizado por Peter de Britto com parceria de Moises Patricio, ou textos sobre artistas afrodescendentes produzidos pela revista O Menelick 2º Ato, por Nabor Júnior, Alexandre Araujo Bispo, Luciane Ramos Silva, Christiane Gomes e eu, dentre outros colaboradores também muitos queridos e competentes. Ele deveria dar uma espiada na Harper”s Bazaar Art de abril onde saíram textos sobre as produções de muitos artistas de cor marrom como a Michelle Mattiuzzi, o Sidney Amaral, o Jaime Lauriano, eu e os outros amigos artistas. Desmerecer uma exposição histórica que dá visibilidade a um trabalho iniciado por Emanoel Araujo, talvez um dos maiores artistas do Brasil, ao ampliar espaço para os artistas dessa origem numa instituição de renome por meio de aquisições e exibição é, no mínimo, uma postura imatura, é não reconhecer que a sociedade está se revendo, e a história da arte também. O formalismo não é o único tema de que os artistas devem e podem tratar, eles podem tratar sobre o que quiserem e espaços privilegiados devem sim exibir obras numa exposição (e em muitas outras) SÓ com artistas de origem africana. Qual é o real problema dessa iniciativa? O Brasil também é um país de afrodescendentes, o que possui mais negros fora da África o que faz da exposição mais legítima ainda ao dar visualidade à forma como artistas provenientes de um segmento menos privilegiado da nossa população conseguiram romper barreiras e se expressarem via uma produção altamente elitizada e sofisticada. Parabéns, à Pinacoteca do Estado e ao diretor curador Tadeu Chiarelli pela ousadia.
Meu caro, estamos em 2015, quase 2016, racismo disfarçado de crítica, não passará.
Me pegou num péssimo dia.

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