Caderno de Anotações – mal acompanhei o debate sobre a peça da companhia Os Fofos encenam, “A mulher do trem”. Por isso, anoto abaixo dois textos, de duas mulheres blogueiras/escritoras, Elaine Brum e Sthephanie Ribeiro, explicitam as críticas e o debate suscitado sobre cultura e racismo no Brasil. Debate intenso e muito bom. Gostei especialmente do texto de Brum, porque transcreve, comenta e reconstrói o debate ocorrido no Itaú Cultural por conta da suspensão da peça, além de tratar da questão dos privilégios dos brancos em meio à este problema histórico-social. O texto de Ribeiro é essencial porque explicita com radicalidade necessária a crítica ao racismo e ao privilégio dos brancos na cena cultural paulista.

–> “Negro não é piada pra branco: chega de fofura seletiva”

Sthefanie Ribeiro, Blogueiras Negras, 5 de maio de 2015

–> No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho.

Eliane Brum, El País, 25 de maio de 2015

Mas para ampliar mais ainda o debate, sobre o mesmo tema, Arte e Racismo no Brasil — o olhar sob privilégio dos brancos, Renata Felinto escreveu hoje (feicibuqui) um texto ótimo, cricando uma crítica escrita na Folha de São Paulo sobre a exposição em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, “Territórios: artistas afrodescendentes no acervo da Pinacoteca”. Veja texto de Felinto abaixo:

Quanta amargura e desconhecimento numa única matéria, que se quer uma crítica de arte, na “Folha de São Paulo Contra Cotas”. Aliás muito curiosa a opinião do autor do texto demonstrando total ignorância em relação a escassa bibliografia sobre a arte produzida por artistas negras e negros, cujas trajetórias e produções têm sido ostensivamente negligenciadas pela crítica (que nada tem, na atualidade, de especializada, quando nos referimos a esse assunto). O preconceito e gueto aos quais se referem o título foram criados por essa mesma crítica despreparada para fruir e dialogar com artistas afrodescendentes e suas tentativas, exitosas em muitos casos, em demonstrar plenos domínios de uma historiografia da arte ocidental e de seus meios de fatura, tanto abordando temas clássicos por meio de técnicas tradicionais quanto materiais e assuntos que revisitam estéticas inúmeras oriundas de África e reorganizadas aqui no Brasil. Desse ponto de vista, é mais que compreensível que a curadoria de “Territórios” tenha dado o panorama de artistas cujas obras estão no acervo da Pinacoteca do Estado, divididos em três eixos que buscam evidenciar esses esforços dos mesmos em estudar, praticar e dominar a forma como a Europa migrada para o Brasil nas Artes Visuais, dizia que deveria ser manipulada essa sabedoria a fim de dar visualidades às idéias. Num primeiro momento os cânones acadêmicos; num segundo o resgate e o conhecimento de uma matriz africana que tem relação direta com os Congressos Negros/ Africanos e com o Movimento Pan-Africanista; e, por fim, a contemporaneidade na qual os artistas falam de tudo e, sobretudo de si, de sua individualidade e coletividade afrodescendente e de como a nossa história mal contou a nossa história, o nosso protagonismo sempre impingido enquanto coadjuvante. Enquanto museus, críticos e historiadores do mundo todo se organizam para uma revisão na história da arte, não combinada, porém necessária e justa, que excluiu negros e negras, mulheres, homossexuais e mais um sem fim de humanidade, anacronicamente, o autor do texto preza e defende a arte feita por e para o homem branco hétero falando dele mesmo ou de um “Outro” (lugar que cabe aos negros), porque é dessa arte, desse lugar que ele escreve a “crítica”. Felizmente, a Pinacoteca do Estado é o museu brasileiro com mais obras de artistas afrodescendentes, eu fiz esse levantamento recentemente, e sim, demonstra em sua exposição composta somente por trabalhos manipulados e elaborados por eles que essas obras não deixam nada a dever ao domínio de uma tradição ao mesmo tempo em que conseguem extrapolá-la ao tocar em assuntos espinhosos de forma magistral. Os críticos de arte do Brasil precisam ver o que acontece fora do país, na Bienal de Veneza (2015), na qual o curador foi o africano nigeriano Okwui Enwezor que selecionou artistas de diferentes países africanos, para tratar de assuntos que dizem respeito ao mundo como o colonialismo e o pós, identidade, o racismo dentre outros, e na Bienal de Gotemburgo da Suécia (2015), com a curadora africano espanhola Elvira Dyangani Osé. É desleal e absurdo afirmar que ali há um gueto quando em exposições de artistas ítalo-brasileiros a mesma afirmação não é feita, ou mesmo quando somente há brancos de várias origem, porém brancos. A naturalização da exclusão dos não brancos que existe na nossa sociedade é reproduzida nos meios das Artes Visuais, por isso, temos coletivos como A Presença Negra idealizado por Peter de Britto com parceria de Moises Patricio, ou textos sobre artistas afrodescendentes produzidos pela revista O Menelick 2º Ato, por Nabor Júnior, Alexandre Araujo Bispo, Luciane Ramos Silva, Christiane Gomes e eu, dentre outros colaboradores também muitos queridos e competentes. Ele deveria dar uma espiada na Harper”s Bazaar Art de abril onde saíram textos sobre as produções de muitos artistas de cor marrom como a Michelle Mattiuzzi, o Sidney Amaral, o Jaime Lauriano, eu e os outros amigos artistas. Desmerecer uma exposição histórica que dá visibilidade a um trabalho iniciado por Emanoel Araujo, talvez um dos maiores artistas do Brasil, ao ampliar espaço para os artistas dessa origem numa instituição de renome por meio de aquisições e exibição é, no mínimo, uma postura imatura, é não reconhecer que a sociedade está se revendo, e a história da arte também. O formalismo não é o único tema de que os artistas devem e podem tratar, eles podem tratar sobre o que quiserem e espaços privilegiados devem sim exibir obras numa exposição (e em muitas outras) SÓ com artistas de origem africana. Qual é o real problema dessa iniciativa? O Brasil também é um país de afrodescendentes, o que possui mais negros fora da África o que faz da exposição mais legítima ainda ao dar visualidade à forma como artistas provenientes de um segmento menos privilegiado da nossa população conseguiram romper barreiras e se expressarem via uma produção altamente elitizada e sofisticada. Parabéns, à Pinacoteca do Estado e ao diretor curador Tadeu Chiarelli pela ousadia.
Meu caro, estamos em 2015, quase 2016, racismo disfarçado de crítica, não passará.
Me pegou num péssimo dia.

por Laura de Mello e Souza

Para responder esta pergunta, a primeira frase que me ocorre é a resposta clássica dada pelo grande Marc Bloch a seu neto, quando o menino lhe perguntou para que servia a História e ele disse que, pelo menos, servia para divertir. Após 35 anos de vida profissional efetiva, como pesquisadora durante seis anos e, desde então – 29 anos – também como docente na Universidade de São Paulo, considero que a diversão é essencial, entendida no sentido de prazer pessoal: a melhor coisa do mundo é fazer algo que gostamos de fato, e eu sempre adorei História, sempre foi minha matéria preferida na escola, junto com as línguas em geral, sobretudo italiano e português, e sempre mais a literatura que a gramática.

Mas a História é, tenho certeza disso, uma forma de conhecimento essencial para o entendimento de tudo quanto diz respeito ao que somos, aos homens. Os humanistas do renascimento diziam que tudo o que era humano lhes interessava. A História é a essência de um conhecimento secularizado, toda reflexão sobre o destino humano passa, de uma forma ou de outra, pela História. Sociologia, Antropologia, Psicologia, Política, todas essas disciplinas têm de se reportar à História incessantemente, e com tal intensidade que o historiador francês Paul Veyne afirmou, com boa dose de provocação, que como tudo era História, a História não existia (em Como escrever a História). Quando os homens da primeira Época Moderna começaram a enfrentar para valer a questão de uma história secular, que pudesse reconstruir o passado humano independente da história da criação – dos livros sagrados, sobretudo da Bíblia – eles desenvolveram a erudição e a preocupação com os detalhes, os fatos, os vestígios humanos – as escavações arqueológicas, por exemplo – e criaram as bases dos procedimentos que até hoje norteiam os historiadores. Mesmo que hoje os historiadores sejam descrentes quanto à possibilidade de reconstruir o passado tal como ele foi, qualquer historiador responsável procura compreender o passado do modo mais cuidadoso e acurado possível, prestando atenção aos filtros que se interpõem entre ele, historiador, e o passado. Qualquer historiador digno do nome busca, como aprendi com meu mestre Fernando Novais, compreender, mesmo se por meio de aproximações. Compreender importa muito mais do que arquitetar explicações engenhosas ou espetaculares, e que podem ser datadas, pois cada geração almeja se afirmar com relação às anteriores ancorando-se numa pseudo-originalidade.

Sem querer provocar meus companheiros das outras humanidades, eu diria que a Antropologia nasce a partir da História, e porque os homens dos séculos XVI, XVII e XVIII começaram a perceber que os povos tinham costumes diferentes uns dos outros, e que esses costumes deviam ser entendidos nas suas peculiaridades sem serem julgados aprioristicamente. É justamente a partir desse conhecimento específico que os observadores podem estabelecer relações gerais comparativas e tecer considerações, enveredar por reflexões mais abstratas. Portanto, a História permite lidar com as duas pontas do fio que possibilita a compreensão do que é humano: o particular e o geral.

A História é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Se conhecermos nosso passado, remoto e recente, teremos melhores condições de refletir sobre nosso destino coletivo e de tomar decisões. Quando dizemos que tal povo não tem memória – dizemos isso frequentemente de nós mesmos, brasileiros – estamos, a meu ver, querendo dizer que não nos lembramos da nossa história, do que aconteceu, por que aconteceu, e daí escolhermos nossos representantes de modo um tanto irrefletido – na história recente do país, o caso de meu estado e de minha cidade são patéticos – de nos sentirmos livres para demolirmos monumentos significativos, fazermos uma avenida suspensa que atravessa um dos trechos mais eloquentes, em termos históricos, da cidade do Rio de Janeiro, o coração da administração colonial a partir de 1763, o palácio dos vice-reis. Quando olho para a cidade onde nasci, onde vivo e que amo profundamente fico perplexa com a destruição sistemática do passado histórico dela, que foi fundada em 1554 e é dos mais antigos centros urbanos da América: refiro-me a São Paulo. Se administradores e elites econômicas tivessem maior consciência histórica talvez São Paulo pudesse ter um centro antigo como o de cidades mais recentes que ela – Boston, Quebec, até Washington, para falar das cidades grandes, que são mais difíceis de preservar.

Não acho que se toda a humanidade fosse alimentada desde o berço com doses maciças de conhecimento histórico o mundo poderia estar muito melhor do que está. Mas a falta do conhecimento histórico é, a meu ver, uma limitação grave e, no limite, desumanizadora. Acho interessante o fato de muitas pesquisas indicarem que, excluindo os historiadores, obviamente, o segmento profissional mais interessado em História é o dos médicos. Justamente os médicos, que lidam com pessoas doentes, frágeis e amedrontadas diante da falibilidade de seu corpo e da inexorabilidade do destino humano. E que têm que reconstituir a história da vida daquelas pessoas, com base na anamnese, para poder ajudá-las a enfrentar seus percalços. Carlo Ginzburg escreveu um ensaio verdadeiramente genial, sobre as afinidades do conhecimento médico e do conhecimento histórico, ambos assentados num paradigma indiciário (refiro-me ao ensaio “Sinais – raízes de um paradigma indiciário”, que faz parte do livro Mitos – emblemas – sinais). Portanto, volto ao início, à diversão, e acrescento: o conhecimento histórico humaniza no sentido mais amplo, porque ajuda a enxergar os outros homens, a enfrentar a própria condição humana.

original publicado em A Folha do Gragoatá em abril de 2012

A estranha liberdade dos africanos

Publicado: novembro 3, 2014 em devaneio

conversa de historiadoras

Os africanos escravizados resgatados pelas autoridades brasileiras de navios que faziam o tráfico ilegal de escravos para o Brasil após a lei de extinção do tráfico negreiro de 1831 foram oficialmente chamados de “africanos livres”.

Foram algumas apreensões nos primeiros anos após a lei, antes que as autoridades finalmente desistissem de tentar aplicá-la e outras tantas após a segunda lei de 1850, que finalmente “pegou”. Segundo a lei de 1831, deveriam ser retornados a algum porto africano, mas não foi o que ocorreu. As autoridades brasileiras os colocaram como prestadores de trabalho compulsório a concessionários particulares, por um prazo de 14 anos, que na maior parte dos casos foi ultrapassado. Na prática, suas vidas pouco se diferenciavam da dos milhões de escravizados, também ilegalmente mas não reconhecidos como tais, que formavam a maior parte dos africanos escravizados no Brasil após a independência política em 1822.

Foram cerca de mil e…

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A “Velha Corrupção” — “Carta aberta aos jovens sobre as eleições”, texto escrito pelo historiador, professor e pesquisador da Unicamp, Sidney Chalhoub, falando sobre política e história em tempos de eleições. Fundamental e despensa apresentações, caia direto na leitura, até o fim!

“A violência do debate eleitoral no momento causa perplexidade aos jovens de idade semelhante aos que tenho em casa, que talvez acompanhem pela primeira vez, “ligados” de verdade, uma campanha eleitoral dessa importância para o país. Especialmente em São Paulo, a grande imprensa produziu um verdadeiro clima de guerra civil midiática em torno desta eleição, desinforma o quanto pode, confunde e manipula. São anos a fio de fogo cerrado contra o governo, em matérias jornalísticas cujos autores assumem o ar arrogante de ilibados defensores da ética e do interesse público.
A insistência no tema da corrupção, como se o atual governo tivesse inventado semelhante mostrengo, é uma combinação ácida de ignorância e hipocrisia. Vamos primeiramente à ignorância histórica, na qual a grande imprensa chafurda com grande desenvoltura. A corrupção está, por assim dizer, no código genético do Estado brasileiro. Nas primeiras décadas após a Independência, período de formação do Estado nacional, a fonte principal da corrupção foi o tráfico ilegal de africanos escravizados. Ao negociar o reconhecimento de nossa Independência no exterior, o Brasil contou com o apoio da Inglaterra em troca do compromisso de não continuar a capturar e escravizar africanos por meio do tráfico negreiro. Em respeito aos acordos internacionais firmados pelo país, o parlamento brasileiro aprovou uma lei de proibição do tráfico africano em 7 de novembro de 1831. Todavia, os africanos continuaram a chegar. Entre 1831 e o início da década de 1850, quando o tráfico realmente acabou por força da aplicação de uma nova lei, 750 mil africanos foram introduzidos no Brasil por contrabando e escravizados à revelia das leis do país.
O tráfico negreiro ilegal coincidiu com o desenvolvimento da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista. Em meados do século XIX, era comum que cerca de 80% dos trabalhadores das fazendas de café dessa região fossem africanos ilegalmente escravizados. Para dizer as coisas com clareza: a riqueza dos barões do café e a prosperidade das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo foram construídas por meio da escravização em massa de africanos sequestrados em seu continente de origem e trazidos para o Brasil ilegalmente. O negócio contou com a prática de corrupção em todas as escalas do governo do país e envolveu amplos setores da sociedade, desde os empresários envolvidos no tráfico, outros empenhados em manter a clandestinidade das operações, até os intermediários e fazendeiros que adquiriam os escravizados.
Basta de informação, oferecida aqui apenas para contrabalançar a ignorância histórica de boa parte da mídia nativa. Em especial quanto aos jornalões do Estado de São Paulo, eles deviam enrubescer de vergonha cada vez que insinuassem a virtude própria para enfatizar a corrupção alheia. Um deles, àquela época chamado A Província de São Paulo, foi fiel defensor dos proprietários de gente criminosamente escravizada. Quanto a este assunto, desde a sua fundação, em 1875, foi conivente com a Velha Corrupção. Sim, “Velha Corrupção”, para marcar bem o tamanho histórico do problema que os jornalões cismam de atribuir ao atual governo, apenas no intuito de desinformar e tentar influir no resultado das eleições.
Portanto, chega de hipocrisia, de usar dois pesos e duas medidas. No país independente, a corrupção surgiu junto com o Estado em formação, nele se incrustou e é uma tragédia que aí continue. Assim como continua a grassar na sociedade, como parece óbvio, presente às vezes nas falas dos próprios sujeitos que, ao mesmo tempo, vociferam contra os corruptos no Estado e se dedicam com afinco a viciar concorrências públicas, a bolar estratégias para sonegar impostos diversos, até para ingressar nos aeroportos do país com muambas variadas e outras baixezas do gênero.
Chega de hipocrisia. Onde estava a disposição de investigação da grande mídia quando o governo do PSDB, segundo se dizia, comprava os votos de parlamentares para aprovar a lei que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso? O chamado “mensalão do PSDB mineiro”, origem do outro do qual tanto se falou, por onde anda? As denúncias de irregularidades nas privatizações tucanas de empresas públicas –algumas vendidas a preço de banana- mereceram a devoção investigativa da grande imprensa? Trens? Metrô? Tudo anda assim tão dentro dos conformes em São Paulo, a nossa Tucanolândia?
A corrupção é tema complexo e difícil. Não há governante, no Brasil, que dê cabo disso numa penada. Muita coisa se pode e deve fazer para livrar o país da Velha Corrupção. Para começar, o governo precisa ter disposição para enfrentar o problema e tem de garantir a eficácia e a independência dos órgãos encarregados de investigar, processar e punir os responsáveis. O governo Dilma foi exemplar nesses quesitos. Por conseguinte, a hipocrisia de caluniá-lo por isto é especialmente danosa à democracia e ao atual processo eleitoral.
ESTÁ AUTORIZADA A REPRODUÇÃO EM BLOGS E SITES DE NOTÍCIA”

a ironia e o humor

Publicado: novembro 6, 2013 em devaneio, idéias, trocas textuais
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é isso, cheguei a conclusão, que seja momentânea, de que prefiro muito mais a ironia ao humor. Eu já desconfiava, mas não tinha certeza se poderia admitir minhas preferências em relação ao humor. Já sou feminista. Feminista que prefere a ironia ao humor … serei queimada na fogueira dos politicamente incorretos de plantão, que adoram um “humor”.

A ironia é como uma mulher em seus quarentas, charmosa, decidida, livre, sabe o que quer, e nem precisa chamar a atenção para deixar isso claro, não precisa ser óbvia.

Já o humor, ainda que simpático, as vezes até interessante, é o primo distante da ironia, mais jovem, inseguro, que precisa ser bonachão e chamar a atenção, às vezes com atitudes e comentários sem graça, às vezes até divertidos, mas óbvios demais quase sempre. É boa gente, recurso divertido, (até necessário), mas facilmente age de forma burra e preconceituosa.

Neste texto publicado no blog do Sakamoto, Rodolfo Viana diz que a ironia não passa de uma bobagem e usa essa figura charmosa também para falar de sua definição! Mas discordo quando Viana diz que ela é “bonitinha, mas ordinária”. Eu diria que ela é sensual, charmosa, sedutora e ainda bem que ordinária!

Em uma das manifestações da greve geral que ocorreu na Martinica e em Guadalupe entre janeiro e março de 2009, observa-se a imagem de um manifestante carregando uma faixa de protesto com as palavras “code noir”. Esta greve geral foi organizada inicialmente em Guadalupe por um coletivo de organizações sindicais, o LKP (Lyannaj Kont Pwofitasyon – Alliance contre l’exploitation extrême ), e em fevereiro o movimento se expandiu para a Martinica, reivindicando avanços sociais naqueles departamentos ultramarinos franceses, como aumento de salários, baixa dos preços de alimentos e dos combustíveis – em geral bem mais caros que na França. A greve teve fim em março do mesmo ano, mas estes departamentos ultramarinos franceses continuaram sob a efervescência dos conflitos, do presente e do passado, eclodidas naquele inverno antilhano.
Em jornais e blogs franceses e antilhanos, temas como “racismo” e “apartheid social e econômico” aparecerem constantemente nos discursos dos manifestantes e trabalhadores em greve, que ligam diretamente tais problemas à história da colonização francesa e da escravidão naquelas ilhas. Em um dos jornais eletrônicos acessados, o jornalista comenta que “desde as primeiras revoltas, na época da colonização e da instauração da escravidão, à greve de 2009 o fator racial sempre radicalizou o confronto social”. E nas palavras de uma entrevistada: “nada mudou realmente desde a escravidão: 90% da economia da ilha está nas mãos dos descendentes dos brancos proprietários de escravos”, os “békés”, diz Patricia Braflan-Trobon, que fala de um “apartheid social e econômico”. E ainda segundo a entrevistada, “os békés não mudaram nada os seus métodos, eles são refratários a qualquer demanda de partilha de lucros. Eles ainda consideram que dar um emprego a um negro já é uma dádiva”.
A referência direta ao passado não surgiu apenas nas falas de grevistas e manifestantes antilhanos. Em 6 de fevereiro daquele inverno em plena crise social, o Canal+ , canal televisivo francês, transmitiu uma reportagem, intitulada “Les Derniers Maîtres de la Martinique”, sobre os herdeiros brancos dos primeiros colonos instalados na ilha de Martinica antes da Revolução Francesa. Um dos békés entrevistados, Alain Huygues-Despointes, lamenta que os historiadores não se interessem “pelo lado bom da escravidão”, exprime seu desejo de “preservar sua raça” e afirma que ao ver “famílias mestiças com brancos e negros”, nas quais “as crianças nascem de cores diferentes”, observa que “não há harmonia”. Tais declarações provocaram a intensificação das manifestações de hostilidades contra os békés na Martinica.
As “feridas” — como diria o historiador guadalupano Oruno D. Lara —  da história da colonização e da escravidão nas colônias francesas vêm sendo abertas intensamento na França desde o início deste século XXI. Não apenas nos “espaços coloniais”, atuais departamentos ultramarinos e nações que se tornaram independentes ao longo do século XX, mas também se fez sentir intensamente na antiga “metrópole”. Myriam Cottias afirma que a “questão colonial” assim como o tema da “escravidão” se impôs no espaço público francês especialmente durante o ano de 2005 e emergiu em larga escala conflitiva, tanto no campo científico como na sociedade. Até 2005, a memória da escravidão e da colonização não eram mais que marginais, furtivas e incidentes sobre a cena nacional francesa, mas um encadeamento de eventos amplificou e tornou tal memória um “conhecimento ativo” (Myriam Cottias, La Question Noir).

Aquele ano foi marcado, primeiramente, com a aprovação da polêmica lei de 23 de fevereiro, “lei de reconhecimento da Nação e da contribuição nacional em favor dos franceses repatriados”, que versa sobre os “aspectos positivos” da colonização francesa. Em outubro de 2005 ocorreram intensos conflitos sociais na França nos espaços urbanos denominados “banlieues” (de 28 de outubro a 17 de novembro de 2005), depois que dois jovens foram eletrocutados e mortos em uma perseguição policial. E por fim, ocorreu a primeira utilização da lei de 10 de maio de 2001 (conhecida como Lei Taubira, versa sobre o reconhecimento pela França de que o tráfico e a escravidão são crimes contra a humanidade), que até então era considerada apenas uma lei normativa. O Collectif des Antillo-Guyanais et Mahorais abriu um processo, baseado naquela lei, contra o historiador Olivier Pétré-Grenouilleau, autor da obra “Les traites négriéres. Essai d’histoire globale” (Paris, Gallimard, 2004), devido aos seus comentários publicados no Journal du Dimanche, onde afirma que “o tráfico de escravos não é genocídio”.
Sob o imaginário político francês, a escravidão e a colonização não tinham mais que um pequeno papel, um pequeno espaço no qual um reduzido número de franceses era portador de uma memória. No entanto, o conjunto nacional foi obrigado a admitir que tal memória não concernia apenas aos antigos colonizados, mas também ao Estado francês, que se construiu através da colonização e da escravidão, e à Nação, que era herdeira desta história. E entre o conjunto das ciências sociais, a “História” foi a mais requisitada a prestar contas. Uma história que em sua escrita tinha concedido à colonização e à escravidão um espaço modesto, insuficiente, sob os princípios universalistas da República. A história francesa, assim, até então silenciara sobre a história da escravidão e mais amplamente, sobre a história colonial. Myriam Cottias afirma que a instituição desse silêncio e seu enraizamento na nação francesa datam da instauração da Segunda República – e a consequente definição da nação – e que a abolição da escravidão em 1848 fundou o “esquecimento do passado”.

Indicações de Leitura

Myriam Cottias. La question noire. Histoire d’une construction coloniale. Paris, Bayard, 2007

Jean-Luc Bonniol (Université d’Aix-Marseilles III, França) também comenta sobre este silêncio da historiografia francesa em torno dos temas da Escravidão e da colonização no artigo “Comment transmettre le souvenir de l’esclavage? Excès de mémoire, exigence d’histoire”, Cités, no 25, 2006, p. 181-185. Paris : Les Presses universitaires de France.

Oruno D. Lara. Guadeloupe: faire face a l’histoire. Paris: Editions L’Harmattan; CERCAM, 2009.

Pierre Boilley, “Loi du 23 février 2005, colonisation, indigènes, victimisations. Évocations binaires, représentations primaires”, Revue Politique africaine, sessão Conjoncture, n. 98, junho/2005, p.131-140

Patrick Weil, “Politique de la mémoire, l’interdit et la commémoration”Espritfev/2007, p.124-142

Em uma entrevista publicada em seu blog, o antropólogo Luiz Eduardo Soares expoe rapidamente sua idéia sobre narrativa como uma linguagem que aproxima o leitor da historia contata, seja ela “verdadeira”, baseada em “fatos reais” ou político-filosófica

Com este trecho de entrevista inicio aqui aquilo que pretendo fazer como uma série, explorando questões sobre formas “narrativas e história”, explorando também outras formas de linguagem que possam ser trabalhadas a partir da pesquisa em ciências humanas, especialmente em história.

Neste trecho da entrevista, Soares estava comentando o projeto que o levou à escrita de Cabeça de Porco e  Elite da Tropa 1 e 2. No texto que destaquei abaixo, ele fala especialmente da linguagem e da estratégia narrativa escolhidas para para contar suas histórias.

(trecho da entrevista)

Então desde sempre a ideia foi fazer livros de ficção?
Soares. Não, nossa ideia era contar a verdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a população de uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso a arte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meu mestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafe de Elite da Tropa 2, nós  precisamos hoje não mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar a superioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo, reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos, em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo que a empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista da efetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém um tratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, você pode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz à prática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além do universo dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagem particular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo como referência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena de morte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passando pela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma nova ação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muito mais efetivo.
Se você conta uma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer o leitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelo personagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólica extraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso para subestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas para justificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhe com outras linguagens e perspectivas.

Eis que publicamos aqui em nossa zona temporária mais um texto de Pajé Lara. Não é necessário apresentações e resumos iniciais. Confira você mesma(o) o conteúdo!

Contra a Cultura – uma crítica ao producaocultural.org.br (by Pajé Lara)

Há um certo rebuliço em torno do projeto producaocultural.org.br sobre o qual, cumprindo o clássico papel de crítico chato e renitente que se mete a falar mal daquilo que (todo mundo) deveria gostar, ofereço minha opinião.

O empreendimento (e reparem, o uso da palavra é proposital) em questão “é um projeto multimídia em três frentes: 100 entrevistas em vídeo com gestores, artistas e realizadores culturais de todas as regiões do Brasil; 5 livros com entrevistas mais longas dos mesmos gestores, artistas e realizadores culturais; uma plataforma online de conversação em torno do conteúdo produzido por nós e da produção cultural brasileira como um todo”. Realizado pela “Casa da Cultura Digital e Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, com orçamento obtido via Cinemateca Brasileira e Associação Amigos da Cinemateca, a execução é responsabilidade da Beijo Técnico Produções Artísticas, Garapa Coletivo Multimídia e FLi Multimídia, em parceria com a Azougue Editorial.”(1)

Os temperos necessários para um projeto moderno, bem sucedido, arrojado e bem empacotado – sem os quais a tal da Cultura seria uma mancha disforme nas falas gerais – estão todos lá: a ideia de “processo” e “obra aberta em desenvolvimento”; de uma “meta-coisa”; tudo “disponibilizado” para download e licenciado em Creative Commons; a abracadabra da multimídia; o esforço “coletivo” e participativo de diversas “comunidades” e assim por diante com aspas. Flickr, Twitter, Facebook, fórum de discussão e o blog completam a necessária escalação internética do esquadrão. Dentre os objetivos estão: “chegar às universidades e enriquecer a bibliografia dos cursos de produção cultural” e “trazer à tona o que está por trás das obras e realizações em si dos entrevistados”(2). Tudo muito bom, tudo muito bem não fosse o fato esclarecedor que o a noção de Cultura, nesse determinado contexto nos oferece.

Antes de mais nada, me sinto na obrigação de dizer que, meus pontos partem não da discordância mas sim de um desacordo sobre alguns elementos que passam despercebidos pelo conteúdo áudio-visual e conceitual. Conheço alguns dos que ajudam a realizar o projeto, admiro demais muitos dos entrevistados e já cruzei, e ainda o faço constantemente, com as ideias gerais apresentadas ali. Destaco meus amigos e ídolos do garapa.org, que compartilham comigo, há 20 anos, a sede por polêmicas e ebriedades. Por isso, me sinto à vontade para criticar, pois não vejo graça em falar mal daquilo que não gosto. Leia o resto deste post »

emprestei esta ai do flickr do caco bressane (cujas ilustrações merecem uma conferida!)


Aqui vai a análise de Pajé Lara, na íntegra, sobre a democracia e o primeiro debate dos presidenciáveis, ainda que fale de outras coisas! Regozigem-se!

TESE

A democracia pode ter seus inúmeros defeitos mas se há algo que ela é, quando não dramática, é cômica. Para os que, como eu, desde 1989, veem os interessados nos cargos públicos eletivos debaterem ao vivo este sempre foi um momento no mínimo, pitoresco. O problema é que, gradualmente, essa característica tem se perdido, dando lugar a um marasmo burocrático, uma tecnicidade irreal e uma falta de tesão digna de uma tarde na coordenadoria pedagógica.

Sim, era mais interessante ver o Brizola, o Maluf, o Covas, o Ulisses, o Jânio e o Lula em suas explosões sinceras do que o Alkmin ou o Serra em suas comedidas simpatias fabricadas. Porém, todavia, no entanto, essa sem-gracice tem a ver com o alardeado “amadurecimento da democracia”, contrariamente à tese da “infância da democracia” que diz o “poder e a política” do mestre Fernando Rodrigues, que defende a ridícula tese de que “são muitas regras e pouca liberdade”. A democracia e a curva à “esquerda” são evidentes nesse processo eleitoral. A democracia pintada como seriedade e representatividade conjunta de elementos definidores da movimentação econômico-social, e a “esquerda” como uma série de discursos que, habilmente, articulam necessidades imediatas e tecnicidades, numa espécie de xamanismo mecânico, na qual os temas que finalmente fazem parte das “agenda sociais” ainda aparecem sob o véu da dominação gerencial.

Desde Aureliano, Maluf, Afif e Caiado em 1989, os candidatos importantes criados e educados na tradicional direita burguesa e autoritária, vêm diminuído quantitativamente a ponto de, em 2010, não existirem. (“O FHC, o Alkmin, o Serra!”, lembraria você, com certa dose de razão, mas explico-me adiante). Embora que para muitos, ser de esquerda entre a década de 40 a década de 70 no Brasil fosse como queimar hereges na inquisição ou matar judeus pelo nacional socialismo – primeiro uma obrigação moral, depois um arrependimento forçado em função de uma frágil consciência e em seguida uma condenação vazia de significado prático – há que se considerar, por uma clareza de análise, que os candidatos do PSDB não são da mesma estirpe dos inicialmente mencionados (o que não os absolve de certas condenações maneiras). Pelo contrário, eles representam a culpa velada da direita no seu caminho inquisidor-eugenista em direção ao amadurecimento discursivo e de convencimento.

A esquerda é um espectro político que se constrói em um campo que apresenta um combate específico de discursos sobre determinadas ideias e temas. Não é em si, uma posição política, mas sim a esfera onde estas posições se contrastam em funções de temas comuns. Obviamente que sua aparente entrada na “agenda” não significa, para o Brasil, qualquer movimento de sua sociedade em direção à igualdade, à justiça social e à igualdade econômica.

Neste sentido, a tese é que, para o bem ou para o mal, o Brasil está se curvando à esquerda. Emprego, diminuição da pobreza, grande papel do Estado, alianças com setores e movimentos e políticas sociais são, desde sempre, tópicos daquele campo que contrapomos à direita. Há no horizonte outros elementos que se agregarão a esse campo, materializados na “onda verde” colombiana, na culpa sócio-ecológica europeia e na oportunidade aberta pela “eleição plebiscitária”.

A critica do Marx no 18 brumário tem muito pouco a acrescentar na esfera da “esquerda” hoje. E os debates que, há 50 anos se travavam, mal se encaixam numa realidade que precisa de uma releitura radical para que novas e fortes oposições surjam.

DEBATE

José Serra e seu inicio pouco elegante em sua tese sobre o CcO (Corpo com órgãos), fez uma analogia (porque metáfora é coisa do lulismo) dos três temas inicialmente propostos com “3 órgãos do corpo humano”. Mais infeliz do que a ideia da analogia foram os exemplos dos órgãos: “coração, fígado e intestino”. Que o candidato não tenha em mente as ideias de Artaud ou Deleuze, ainda se desculpa, mas o fato de um ex-ministro da saúde, ao invés de citar cérebro e pulmão, cite “fígado e intestino” é, no mínimo, deselegante. Fica a pergunta sobre o paralelo entre a função do intestino e da educação ou do fígado e da segurança (pressupondo que a saúde é o coração).

O candidato da “direita” resume seu trajeto político na base da coleção “primeiros passos” da editora “política para iniciantes” dizendo de sua presidência na UNE, da participação na JUC (onde “saindo da adolescência” conheceu o candidato mais à “esquerda”), da sua participação na constituinte, na estabilidade econômica e nos programas sociais. Marina (a candidata na nova alternativa) lembra que foi do PT, prega o “realinhamento histórico” contra as divergências, e prega o trabalho junto entre os representantes da “direita” e da “esquerda”. O candidato da “direita” termina respondendo: “Marina, eu to muito na sua linha”.

No debate, acabaram com o Paulo Freire, minimizaram a reforma agrária louvando a agricultura familiar, assassinaram a ética, elevaram o crack à política de juventude. Marina sempre graciosa, chamando o Tarso Genro de amigo e o Plínio de humanista e professor, apela pela convergência e realinhamentos dos temas e políticas prioritárias, embora tenha tido uma recaída Durkheimiana na tese do “adoecimento da sociedade”. Mas tudo em casa.

O que se iniciou depois do Estado novo, com uma nova configuração para a mobilização trabalhadora, uma nova visão de Estado, uma outra concepção de cultura nacional, uma descoberta de recursos materiais e simbólicos e novas oportunidades para o desenvolvimento econômico, desemboca no falatório esperançoso do Janguismo e não se surpreende com o golpe de primeiro de Abril (ou a Revolução de 30 de Março, dependendo se você é de direita ou de esquerda).

Após a igreja se cindir entre a JUC e a TFP, a esquerda se dividir entre todas as combinações possíveis das letras do alfabeto de AP ate VPR e os comunistas se firmarem em algum lugar entre a Albânia e a Tcheco-Eslováquia, no ABC (como se o simples pedagogismo nos fizesse compreender melhor), o filtro da voz de milhares captura o ouvido dos de boa vontade.

ANTI-TESE

A anti-tese é a de que existe algo como o lulismo.

Era mais do que evidente (e hoje se pode afirmar com certa serenidade de espírito) que a igreja, os intelectuais inconformados – sim! Existem os que se conformam! – e os trabalhadores (onde eles estavam até agora????) dariam um passo para além dos desgostos do exílio, das aventuras armadas e do tropicalismo festeiro. E foi o que aconteceu.

O mais importante projeto político que desabrochou, depois da ditadura, foi sem dúvida a dinâmica oferecida pelo partido dos trabalhadores. Enganam-se (ou tentam enganar) aqueles que apontam o lulismo como marco do atual magnetismo político. Na última eleição, dos 4 principais candidatos, 3 eram ou foram do Partido dos Trabalhadores. Na eleição deste ano, a proporção é a mesma. Mesmo sem contar o Zé Maria do PSTU e o Rui Costa do PCO, 71,5% dos mais bem politicamente representados nos últimos processos de eleição, algum dia foram do PT: Marina, o Plínio, a Heloisa Helena, o Cristóvam Buarque, o Lula e a Dilma.

De novo, repito que, de modo algum, na minha opinião, isso seja determinante para a saída honrosa de um Capitalismo bárbaro e assassino que perpetua a dominação através da domesticação. Mas negá-lo é tão inconsistente quanto querer “não querer” o poder ou buscá-lo pela via militar com o argumento que guerreamos pela paz.

O próprio Lula, diversas vezes já disse que é somente o porta voz, o resultado, o produto deste campo político que, herdeiro do comunismo, do sindicalismo e do catolicismo, deu nova face a política brasileira desde 1980. O tal lulismo pode até manter de pé uma aparente força centrífuga dentro do partido, mas sem dúvida, não responde a uma minuciosa análise política sobre o atual estado dos debate no Brasil. O campo político no Brasil, finalmente, é direcionado por uma conjunção que hoje, proporciona um debate da e na esquerda. Existem aqueles que defenderão a propriedade da coordenada espacial para si, porém, se dependesse da exclusividade do discurso e da garantia da verdade, tudo seria menos divertido.

De qualquer maneira continua deprimente, decadente e indecente a cobertura jornalística. E alentador saber e verificar que as garras das empresas de mídia (sem subestimar seu poder) já não podem fincar em todo o terreno (mais uma vez, a razão ao Lula que, mesmo que não quisesse, apostou mais numa proposta e ação política do que delegou a culpa na oposição – por mais forte que ela possa rugir). O Boechat fazendo cara de repolho estragado depois das respostas da Dilma e de criança na apresentação do palhaço pimpão após as respostas do Serra é mais do que evidência do nível pré-sal que a mídia pode chegar em termos de dignidade e responsabilidade sobre a concessão pública que recebe.

UM ABRAÇO FERVOROSO

Símbolo disso, é a tentativa de ridicularização do Plínio, como se fosse um candidato qualquer de um partido pequeno. Sobre o partido, me abstenho das opiniões (meu apreço pelo Chico Alencar não me permite sequer iniciar a escrever minhas impressões sobre o PSOL).

É óbvio que não esquecem, mas nunca é demais lembrar. Plínio é representante político desde 1962, deputado federal constituinte, foi chefe da casa civil de Carvalho Pinto (sim, a rodovia já foi governador. Não confundir com Ayrton Senna), relator do plano de reforma agrária do Jango, constante consultor das Nações Unidas, coordenador da campanha mais bonita que a esquerda já fez nesse país (Lula, 1989), candidato a governador de São Paulo em 1990, dentre muitas outras coisas. Um homem católico que fez mais pela sua crença solidária e pela sua ideologia do que você jamais pensara ser possível fazer.

Meu abraço caloroso, fraterno e fervoroso vai pra ele.