subtitulo – quando Hakim Bey encontra Thompson

TAHZ – temporary autonomous history’s zone, ou melhor, zona de história autônoma temporária. Ou, quando Hakim Bey encontra E. P. Thompson. TAHZ é uma referência à Hakim Bey (TAZ – temporary autonomous zones), mas não uma ode ao autor. O termo é muito bom e me aproprio dele, mas não sem críticas, especialmente devido à noção simplista de Bey sobre história. Por isso o encontro com E. P. Thompson é fundamental aqui!

Minha leitura é que a ideia de TAZ coloca em relevo “nao-eventos” e “não-pessoas“, talvez momentos e pessoas aparentemente sem história. Ainda que em momentos revolucionários, levantes sejam temporários, a história pode lhes conferir permanência, existência e intensidade e que podem levá-los a um estado não temporário, que por sua vez podem levar a outras zonas temporárias autônomas, mas não em um movimento cíclico, pois a história humana é movida pela indeterminação e pela imprevisibilidade. Tentamos dar sentido a este movimento, para compreender a experiência humana, mas as tentativas e explicações dificilmente superarão a indeterminação.

Hakim Bey afirma que “levante e insurreição são palavras usadas pelos historiadores para caracterizar revoluções que fracassaram – movimentos que não chegaram a terminar seu ciclo, a trajetória padrão: revolução, reação, traição, a fundação de um Estado mais forte e ainda mais opressivo -, a volta completa, o eterno retorno da história, uma e outra vez mais, até o ápice (…)” (Bey, 2001, p. 15). Ainda que esteja certo em sua crítica a muitos historiadores que assim tomaram levantes e insurreições, antes da publicação de TAZ de Hakim Bey, um historiador marxista percebeu que havia histórias intensas para contar para além da história das revoluções. Em seu “Economia moral da multidão”, Thompson trata dos “motins” (especificamente os “motins” da fome na Inglaterra setecentista), outra palavra utilizada no mesmo sentido de insurreições ou levantes. E. P. Thompson faz uma crítica essencial à visão espasmódica sobre estes momentos históricos, os “motins”: “essa simples palavra de cinco letras é capaz de encobrir o que pode ser descrito como uma visão espasmódica da história popular. Segundo essa visão, dificilmente se pode tomar a gente comum como agente histórico antes da Revolução Francesa. Antes desse período, ela se intromete ocasional e espasmodicamente na cena histórica, em período de repentina perturbação social. Essas intromissões são antes compulsivas que conscientes ou auto-ativadas: não passam de reações aos estímulos econômicos. Basta mencionar uma colheita malograda ou uma tendência de baixa no mercado, e todos os requisitos da explicação histórica estão satisfeitos (…) O motim da fome na Inglaterra do século XVIII era uma forma altamente complexa de ação popular direta, disciplinada e com objetivos claros. (…) Embora essa economia moral não possa ser descrita como “política” em nenhum sentido mais avançado, tampouco pode ser descrita como apolítica, pois supunha noções definidas, apaixonadamente defendidas, do bem-estar comum – noções que na realidade encontravam algum apoio na tradição paternalistas das autoridades; noções que o povo, por sua vez, fazia soar tão alto que as autoridades ficavam, em certa medida, reféns do povo. Assim, essa economia moral não se intrometia apenas nos momentos de perturbação social, mas incidia de forma muito geral sobre o governo e o pensamento do século XVIII. A palavra “motim” é demasiado pequena para abarcar tudo isso”.

Cada qual em sua praia, Hakim Bey e E. P. Thompson tratam da importância destes momentos (zonas temporárias … ou aparemtente temporárias!), de ação contra uma forma de opressão (seja o Estado, a Economia, o paternalismo, ou tudo no mesmo saco), que de alguma forma as tornam também “zonas autônomas”. Tudo bem que isso possa ser um tanto forçado de minha parte, quando faço referência a Thompson, que trata de uma sociedade de estrutura paternalista como era aquela da Inglaterra do século XVIII.

Não é tão absurdo colocar um anarquista e um marxista juntos. É desta forma que as ideias fluem e se complexificam. No entanto, diria que tendo muito ao meu lado thompsoniana. A “utopia pirata” de Bey, seus “enclaves livres” existem por ai, são ilhas, e é essencial compreendermos estas zonas autonomas temporárias, ou vivê-las, para experimentarmos e (in)compreendermos o comportamento humano. A falha de Hakim Bey é não ressaltar (e não acho que lhe interessava!) que estas ilhas são cercadas pelo mar, que leva e trás coisas imprevisíveis e indetermináveis. Não estão desconectadas. As zonas de utopias estão imersas em nossas vidas cotidianas e são delas que explodem levantes das formas mais variadas e criativas possíveis. Ou experiências as mais surpreendentes e inimagináveis. A ação humana – seu passado, presente e (não sei se posso dizer!) o futuro – não é um agregado de histórias separadas, isoladas, “mas uma soma unitária do comportamento humano” (E. P. Thompson).

Talvez por isso que a crítica de Hakim Bey à história é um grande e falacioso senso comum, ainda que tente ser poético: “Se a História é “Tempo”, como declara ser, então um levante é um momento que surge acima e além do Tempo, viola a “lei” da História. Se o Estado É História, como declara ser, então o levante é o momento proibido, uma imperdoável negação da dialética – como dançar sobre um poste e escapar por uma fresta, uma manobra xamanística realizada num “ângulo impossível” em relação ao universo”.

No entanto, o que Hakim Bey revela como TAZ é fundamental para impulsionar mudanças acerca do comportamento humano, da compreensão sobre as coisas do mundo, sensibilizar a vivência contra formas de opressão (que para mim não são apenas o Estado, que tem alguns papéis que até agora não vejo como dispensar) a partir de experiências utópicas, insurrecionais, provocativas, criativas, fora da ordem e não-espetacularizada: “não queremos dizer que a TAZ é um fim em si mesmo, substituindo todas as outras formas de organização, táticas e objetivos. Nós a recomendamos porque ela pode fornecer a qualidade de enlevamento associado ao levante ao levante sem necessariamente levar à violência e ao martírio. A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, te tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa emagá-la. (…) Inciar a TAZ pode envolver várias táticas de violência e defesa, mas seu grande trunfo está em sua invisibilidade – o Estado não pode reconhecê-la porque a História não a define. Assim, que a TAZ é nomeada (representada, mediada), ela deve desaparecer, ela vai desaparecer, deixando para trás um envólucro vazio, e brotará novamente em outro lugar, novamente invisível, porque é indefinível pelos termos do Espetáculo”.

E por ai vai …………………………………………… a história é minha TAZ!

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