história, silenciamento e contemporaneidade em histórias antilhanas

Publicado: maio 7, 2012 em história do presente
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Em uma das manifestações da greve geral que ocorreu na Martinica e em Guadalupe entre janeiro e março de 2009, observa-se a imagem de um manifestante carregando uma faixa de protesto com as palavras “code noir”. Esta greve geral foi organizada inicialmente em Guadalupe por um coletivo de organizações sindicais, o LKP (Lyannaj Kont Pwofitasyon – Alliance contre l’exploitation extrême ), e em fevereiro o movimento se expandiu para a Martinica, reivindicando avanços sociais naqueles departamentos ultramarinos franceses, como aumento de salários, baixa dos preços de alimentos e dos combustíveis – em geral bem mais caros que na França. A greve teve fim em março do mesmo ano, mas estes departamentos ultramarinos franceses continuaram sob a efervescência dos conflitos, do presente e do passado, eclodidas naquele inverno antilhano.
Em jornais e blogs franceses e antilhanos, temas como “racismo” e “apartheid social e econômico” aparecerem constantemente nos discursos dos manifestantes e trabalhadores em greve, que ligam diretamente tais problemas à história da colonização francesa e da escravidão naquelas ilhas. Em um dos jornais eletrônicos acessados, o jornalista comenta que “desde as primeiras revoltas, na época da colonização e da instauração da escravidão, à greve de 2009 o fator racial sempre radicalizou o confronto social”. E nas palavras de uma entrevistada: “nada mudou realmente desde a escravidão: 90% da economia da ilha está nas mãos dos descendentes dos brancos proprietários de escravos”, os “békés”, diz Patricia Braflan-Trobon, que fala de um “apartheid social e econômico”. E ainda segundo a entrevistada, “os békés não mudaram nada os seus métodos, eles são refratários a qualquer demanda de partilha de lucros. Eles ainda consideram que dar um emprego a um negro já é uma dádiva”.
A referência direta ao passado não surgiu apenas nas falas de grevistas e manifestantes antilhanos. Em 6 de fevereiro daquele inverno em plena crise social, o Canal+ , canal televisivo francês, transmitiu uma reportagem, intitulada “Les Derniers Maîtres de la Martinique”, sobre os herdeiros brancos dos primeiros colonos instalados na ilha de Martinica antes da Revolução Francesa. Um dos békés entrevistados, Alain Huygues-Despointes, lamenta que os historiadores não se interessem “pelo lado bom da escravidão”, exprime seu desejo de “preservar sua raça” e afirma que ao ver “famílias mestiças com brancos e negros”, nas quais “as crianças nascem de cores diferentes”, observa que “não há harmonia”. Tais declarações provocaram a intensificação das manifestações de hostilidades contra os békés na Martinica.
As “feridas” — como diria o historiador guadalupano Oruno D. Lara —  da história da colonização e da escravidão nas colônias francesas vêm sendo abertas intensamento na França desde o início deste século XXI. Não apenas nos “espaços coloniais”, atuais departamentos ultramarinos e nações que se tornaram independentes ao longo do século XX, mas também se fez sentir intensamente na antiga “metrópole”. Myriam Cottias afirma que a “questão colonial” assim como o tema da “escravidão” se impôs no espaço público francês especialmente durante o ano de 2005 e emergiu em larga escala conflitiva, tanto no campo científico como na sociedade. Até 2005, a memória da escravidão e da colonização não eram mais que marginais, furtivas e incidentes sobre a cena nacional francesa, mas um encadeamento de eventos amplificou e tornou tal memória um “conhecimento ativo” (Myriam Cottias, La Question Noir).

Aquele ano foi marcado, primeiramente, com a aprovação da polêmica lei de 23 de fevereiro, “lei de reconhecimento da Nação e da contribuição nacional em favor dos franceses repatriados”, que versa sobre os “aspectos positivos” da colonização francesa. Em outubro de 2005 ocorreram intensos conflitos sociais na França nos espaços urbanos denominados “banlieues” (de 28 de outubro a 17 de novembro de 2005), depois que dois jovens foram eletrocutados e mortos em uma perseguição policial. E por fim, ocorreu a primeira utilização da lei de 10 de maio de 2001 (conhecida como Lei Taubira, versa sobre o reconhecimento pela França de que o tráfico e a escravidão são crimes contra a humanidade), que até então era considerada apenas uma lei normativa. O Collectif des Antillo-Guyanais et Mahorais abriu um processo, baseado naquela lei, contra o historiador Olivier Pétré-Grenouilleau, autor da obra “Les traites négriéres. Essai d’histoire globale” (Paris, Gallimard, 2004), devido aos seus comentários publicados no Journal du Dimanche, onde afirma que “o tráfico de escravos não é genocídio”.
Sob o imaginário político francês, a escravidão e a colonização não tinham mais que um pequeno papel, um pequeno espaço no qual um reduzido número de franceses era portador de uma memória. No entanto, o conjunto nacional foi obrigado a admitir que tal memória não concernia apenas aos antigos colonizados, mas também ao Estado francês, que se construiu através da colonização e da escravidão, e à Nação, que era herdeira desta história. E entre o conjunto das ciências sociais, a “História” foi a mais requisitada a prestar contas. Uma história que em sua escrita tinha concedido à colonização e à escravidão um espaço modesto, insuficiente, sob os princípios universalistas da República. A história francesa, assim, até então silenciara sobre a história da escravidão e mais amplamente, sobre a história colonial. Myriam Cottias afirma que a instituição desse silêncio e seu enraizamento na nação francesa datam da instauração da Segunda República – e a consequente definição da nação – e que a abolição da escravidão em 1848 fundou o “esquecimento do passado”.

Indicações de Leitura

Myriam Cottias. La question noire. Histoire d’une construction coloniale. Paris, Bayard, 2007

Jean-Luc Bonniol (Université d’Aix-Marseilles III, França) também comenta sobre este silêncio da historiografia francesa em torno dos temas da Escravidão e da colonização no artigo “Comment transmettre le souvenir de l’esclavage? Excès de mémoire, exigence d’histoire”, Cités, no 25, 2006, p. 181-185. Paris : Les Presses universitaires de France.

Oruno D. Lara. Guadeloupe: faire face a l’histoire. Paris: Editions L’Harmattan; CERCAM, 2009.

Pierre Boilley, “Loi du 23 février 2005, colonisation, indigènes, victimisations. Évocations binaires, représentations primaires”, Revue Politique africaine, sessão Conjoncture, n. 98, junho/2005, p.131-140

Patrick Weil, “Politique de la mémoire, l’interdit et la commémoration”Espritfev/2007, p.124-142

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