das narrativas I

Publicado: novembro 29, 2010 em devaneio, idéias, trocas textuais
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Em uma entrevista publicada em seu blog, o antropólogo Luiz Eduardo Soares expoe rapidamente sua idéia sobre narrativa como uma linguagem que aproxima o leitor da historia contata, seja ela “verdadeira”, baseada em “fatos reais” ou político-filosófica

Com este trecho de entrevista inicio aqui aquilo que pretendo fazer como uma série, explorando questões sobre formas “narrativas e história”, explorando também outras formas de linguagem que possam ser trabalhadas a partir da pesquisa em ciências humanas, especialmente em história.

Neste trecho da entrevista, Soares estava comentando o projeto que o levou à escrita de Cabeça de Porco e  Elite da Tropa 1 e 2. No texto que destaquei abaixo, ele fala especialmente da linguagem e da estratégia narrativa escolhidas para para contar suas histórias.

(trecho da entrevista)

Então desde sempre a ideia foi fazer livros de ficção?
Soares. Não, nossa ideia era contar a verdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a população de uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso a arte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meu mestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafe de Elite da Tropa 2, nós  precisamos hoje não mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar a superioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo, reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos, em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo que a empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista da efetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém um tratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, você pode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz à prática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além do universo dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagem particular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo como referência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena de morte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passando pela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma nova ação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muito mais efetivo.
Se você conta uma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer o leitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelo personagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólica extraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso para subestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas para justificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhe com outras linguagens e perspectivas.

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