Contra a Cultura – Uma crítica ao producaocultural.org.br

Publicado: agosto 28, 2010 em critica, história do presente, idéias
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Eis que publicamos aqui em nossa zona temporária mais um texto de Pajé Lara. Não é necessário apresentações e resumos iniciais. Confira você mesma(o) o conteúdo!

Contra a Cultura – uma crítica ao producaocultural.org.br (by Pajé Lara)

Há um certo rebuliço em torno do projeto producaocultural.org.br sobre o qual, cumprindo o clássico papel de crítico chato e renitente que se mete a falar mal daquilo que (todo mundo) deveria gostar, ofereço minha opinião.

O empreendimento (e reparem, o uso da palavra é proposital) em questão “é um projeto multimídia em três frentes: 100 entrevistas em vídeo com gestores, artistas e realizadores culturais de todas as regiões do Brasil; 5 livros com entrevistas mais longas dos mesmos gestores, artistas e realizadores culturais; uma plataforma online de conversação em torno do conteúdo produzido por nós e da produção cultural brasileira como um todo”. Realizado pela “Casa da Cultura Digital e Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, com orçamento obtido via Cinemateca Brasileira e Associação Amigos da Cinemateca, a execução é responsabilidade da Beijo Técnico Produções Artísticas, Garapa Coletivo Multimídia e FLi Multimídia, em parceria com a Azougue Editorial.”(1)

Os temperos necessários para um projeto moderno, bem sucedido, arrojado e bem empacotado – sem os quais a tal da Cultura seria uma mancha disforme nas falas gerais – estão todos lá: a ideia de “processo” e “obra aberta em desenvolvimento”; de uma “meta-coisa”; tudo “disponibilizado” para download e licenciado em Creative Commons; a abracadabra da multimídia; o esforço “coletivo” e participativo de diversas “comunidades” e assim por diante com aspas. Flickr, Twitter, Facebook, fórum de discussão e o blog completam a necessária escalação internética do esquadrão. Dentre os objetivos estão: “chegar às universidades e enriquecer a bibliografia dos cursos de produção cultural” e “trazer à tona o que está por trás das obras e realizações em si dos entrevistados”(2). Tudo muito bom, tudo muito bem não fosse o fato esclarecedor que o a noção de Cultura, nesse determinado contexto nos oferece.

Antes de mais nada, me sinto na obrigação de dizer que, meus pontos partem não da discordância mas sim de um desacordo sobre alguns elementos que passam despercebidos pelo conteúdo áudio-visual e conceitual. Conheço alguns dos que ajudam a realizar o projeto, admiro demais muitos dos entrevistados e já cruzei, e ainda o faço constantemente, com as ideias gerais apresentadas ali. Destaco meus amigos e ídolos do garapa.org, que compartilham comigo, há 20 anos, a sede por polêmicas e ebriedades. Por isso, me sinto à vontade para criticar, pois não vejo graça em falar mal daquilo que não gosto.

Com uma belíssima qualidade técnica, imagens impecáveis, lindíssima trilha sonora e entrevistados interessantíssimos, o projeto esconde na sua aparência progressista a essência política da manutenção da ordem estética e perpetua a superficialidade do manual “para iniciantes” que a noção de Cultura nos vende. Me irrita um pouco a perfeição da informalidade, o cálculo exato do fora de foco e os movimentos milimetricamente soltos de uma estética limpo-suja da simplicidade sofisticada. Como a história se repete como farsa, não deixou de ser um pouco deprimente e irônico ver o Fernando Faro ali participando de um pastiche e corolário de sua própria invenção genial.

Essa “estética” (na verdade uma aparência), equaliza o Zé Celso e a moça da Fundação Ford, põe no balaio multimídia padrão o MC Leonardo e o Midano e esconde e equaliza o que deveria mostrar e diferenciar: a apresentação e a paisagem de cada um e a singularidade de cada signo. A “calma daquelas paredes brancas, nos quase-sussurros dos entrevistadores e no silêncio dos cliques das câmeras”(3) esconde exatamente aquilo que está na formação das expressões que é a paisagem, aquele “ser e saber que ganham valor de escrita”(4) quando habitada pela humanidade. Um texto sem expansão é um museu, uma peça que não se desloca, que não abre a potencialidade da relação que há tanto tempo tentamos des-dualizar: natureza-cultura. Nada sobrevive enjaulado, nada se reproduz sem ser nômade e a visão que a “cultura” pode proliferar “num tempo suspenso” é a lógica da mercadoria, e não dos imaginários.

A simpatia das imagens leva todos a cumprirem o mesmo papel de agentes, quando na verdade, o que importa ali, é a aparência do quadro geral: as tomadas, os equipamentos cuidadosamente alocados dentro do plano, a infinitude que torna os entrevistados muito mais desinteressantes do que são. Um “quarto branco” não vai nunca se tornar o “centro” da produção cultural brasileira. Dizer que sim é tão ofensivamente distraído quanto ideologicamente enganador.

Só posso compreender tal molde da “produção cultural” nos termos empregados pelo projeto, não como um erro na apreensão da noção de cultura, mas sim como um sintoma de sua própria existência, da pobreza sensível em que as expressões foram encaixotadas pela lógica “cultural”. Já é hora então de aceitarmos que a cultura é um fenômeno que classifica, hierarquiza, suaviza e inocenta sua própria vontade de ser mercadoria e de controlar minunciosamente seus compradores devido ao quão reacionário, dominador e fluído tem sido o uso do termo.

Não vou dizer que toda a visão que se tem de cultura seja a branca, da Vila Madalena, e do cinema europeu. Mas por toda parte ela tem sido responsável por uma miséria conceitual que pressuriza a revolta das sensibilidades. Félix Guattari já dizia que o “conceito de cultura é extremamente reacionário”. Mas, na esteira da nomenclatura adjetivo-substantivo que desfoca a política, a “produção cultural” está arrastada pela net-cultura, cultura digital, cultura viva, cultura de rua, arte e mídia, bem característica de uma nova onda (5) surfada pela classe do novo (6) que domestica e molda as expressões segundo seu próprio prisma. O problema está em quem fala, como mostra e para quem se dirige.

Como bom rebento da rebeldia de mercado, a aproximação do projeto com a cultura é bem objetiva. Abstração é coisa de intelectual que não vai à praia, mas bebe (7). Ao mesmo tempo, é uma rendição ao modo londrino de gerenciar a classe criativa que, individualista e vívida, procura seu lugar ao sol que se esconde atrás da névoa do Capital. Os entrevistados, impedidos de se diferenciar um do outro, descontextualizados, recebem o título de produtores (Walter Benjamin clicando com o botão direito do mouse para salvar o vídeo do Nelson Motta) e são postos em um genuflexório que aparenta mais importância que aquilo que pregam.

Há também, no formato geral, um otimismo generalizado que de alguma maneira não se encaixa. Cultura teria que significar conflito e luta, problemas e saídas, mas, de novo, acho que teremos que aceitar que a igreja da classe criativa (8) abriu mais uma porta para o paraíso da mídia, na qual se lê “a cultura dignifica o homem”. A produção enquanto ética dá a mão ao trabalho e caminham, limpos e vocacionados, para o reino da cultura.

Entendo que não é papel do governo ou de empresas criticar a forma de apoio ou a visão que se tem de cultura. Para estes, o produto (que não é mercadoria por um erro do escrivão do cartório) não tem cheiro. Mas quanto aos praticantes, agentes e críticos, se se calarem quanto à maneira que esta ótica é reproduzida, compactuam com um trajeto errado e se retiram do papel de colaboração por uma perspectiva que seja mais radical, transformadora e alternativa.

Neste “sepulcro de obra de arte”, como diria o Adorno, um museu na internet, que na vida real conta com camarins “com espelho, sessão de maquiagem e alguns petiscos e frutas para beliscar”(9), a extrema-unção da sensibilidade já foi oferecida. Substituída por uma mágica da aparência, aparece a certeza de que se não mudarmos a linguagem e nos inconformarmos com o fato de que a “cultura” passou a ser refletores e bastidores, seremos todos assistentes de produção.

Espero ansiosamente pelo livro, já que o filme não foi lá essas coisas. Assim como estou curioso sobre a seleção final dos entrevistados, já que até agora, cachaça, rádio e prostituição ainda não foram elencados para o grupo de produtores de significado.

(1) Retirado do site http://www.producaocultural.org.br/

(2) Retirado do site http://www.producaocultural.org.br/

(3) Retirado do site http://www.producaocultural.org.br/

(4) Ver: Jose Lezama Lima – A expressao Americana

(5) Ver: Gilles Deleuze – Conversacoes

(6) Ver: Richard Barbrook – The class of the New

(7) Ver quadrinho de Jaguar, n’o pasquim, frase atribuida a Paulo Francis

(8) Nomenclatura atribuida no inicio dos anos 90 para identificar uma nova forma de produtores, artistas, empreendedores e agitadores. Fruto do governo trabalhista inglês, foi primeiramente utilizada pelo prefeito Ken Livingstone, de Londres

(9) Retirado do site http://www.producaocultural.org.br/

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comentários
  1. Gosto da critica. Sei que ha um tom acido, quase paternal, por parte do Paje. Eh o minimo que eu espero dele; esperar o maximo de mim , ja que somos amigos de tao longa data (de mim e do projeto como todo, nesse caso).
    Nao considero a estetica audiovisual do prodcult primorosa nem vanguardista (estamos por ver o resultado literario). Eh, como diria Andre Francois, arroz com feijao bem feito. Sabemos, de dentro do processo, os porques e as limitacoes que tivemos. E essas limitacoes sao correspondentes a nossa pretensao de realizar um projeto desse porte num periodo de tempo tao curto, e com verba tao limitada. Nao acho que fizemos revolucao, nao acho que discutimos cultura profundamente. Nao acho que nada disso possa ser feito no ritmo em que produzimos o prodcult.
    O que fizemos, entao?
    Na minha opiniao, iniciamos um otimo “arquivo” da cultura nacional… Ok, como disse o Paje, faltou cachaca… Tem umas dosezinhas com o Toninho Mendes, e com mais um ou outro personagem. Mas, realmente, concordo que a parada toda eh mainstream. Enfim, temos consciencia que a realizacao de um projeto como esse atende a interesses diversos (desde o cliente, ate as diversas partes envolvidas)… Mas criticos nao querem saber disso e, saber disso nao eh o papel da critica – eu poderia ate ser cruel aqui e jogar o velho “sentar a bunda na cadeira e criticar eh facil… quero ver eh fazer…”, mas nao vou (ou ja fiz, mas e protegi nos hifens, hehehhe).
    Alem disso, toda a proposta aberta/multimidia/projeto moderno/ bem sucedido/arrojado/bem empacotado tem, como um dos objetivos, a construcao de uma obra nao estanque, isso eh inegavel, e possibilita utilizacao das redes para a complementacao e anexacao de apendices a proposta inicial. Ou nao?

    Discordo do Paje em relacao ao quarto branco, ao limpo-sujo, e a frase linda que ele construiu pra dizer que acha uma bosta o que a gente fez, rs. Tenho liberdade pra dizer que ele tem gabarito pra ser critico chato, mas de construcao fotografica ele nao manja porra nenhuma (pra quem conhece, eh so lembrar de como ele realizou o convite de aniversario de 7 anos da filha dele!!)…
    Gosto da ideia de tirar personagens dos ambientes nos quais as pessoas esperam que eles (os personagens) estejam. Gosto do fato de a realidade nao ser real, e do retrato se assumir como construcao. Acho extremamente conservador esperar o contrario disso… Nesse caso, retratariamos o Farkas (pra citar um exemplo que nao seja o Faro), com 80 e tantos anos , montado num caminhao, vestido em roupas de Safari, com uma camera milimetricamente posicionada no segundo plano da imagem, dando depoimentos sobre sua realidade? Ora, esse nao eh o Farkas… Talvez tenha sido ha 40 anos atras, mas ja nao eh… E ao mesmo tempo, eh por conta daquele Farkas (o de 40 anos atras) que sua entrevista e necessaria. Ou assumimos a construcao, ou, ai sim, propomos uma estetica conservadora e previsivel. Como disse o Pedro Markun, mesmo desconsiderando o operacional da coisa (que torna o quarto branco muito mais viavel que o galho de cada macaco), acredito no documentarismo que constroi e encena, nao no retrato da realidade. Na verdade, depois do vinho do almoco ja nao acredito nem na existencia realidade… Mas isso eh gosto, eh cereja de bolo.
    De qq maneira, qualquer coisa que venha do Paje me faz crescer… Me faz xingar muitas vezes, mas tvz por isso tenha nele a referencia que tenho. Saber que vc gastou tempo (na verdade sei o quanto vc gosta de perder tempo tb, rs) nao me deixa duvidas de que realmente ha algo a ser observado no Prodcult.
    Bjocas

  2. glerm disse:


    +

    =
    eu nao conheço nem 10% das figurinhas daquela heraldica deles la
    acho que moro no paraguai

    bjs pras GURIA abraço pros MANO

    y ciao piazada!

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