Uma tese, uma anti-tese e um abraço fervoroso

Publicado: agosto 13, 2010 em história do presente, idéias, trocas textuais
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Aqui vai a análise de Pajé Lara, na íntegra, sobre a democracia e o primeiro debate dos presidenciáveis, ainda que fale de outras coisas! Regozigem-se!

TESE

A democracia pode ter seus inúmeros defeitos mas se há algo que ela é, quando não dramática, é cômica. Para os que, como eu, desde 1989, veem os interessados nos cargos públicos eletivos debaterem ao vivo este sempre foi um momento no mínimo, pitoresco. O problema é que, gradualmente, essa característica tem se perdido, dando lugar a um marasmo burocrático, uma tecnicidade irreal e uma falta de tesão digna de uma tarde na coordenadoria pedagógica.

Sim, era mais interessante ver o Brizola, o Maluf, o Covas, o Ulisses, o Jânio e o Lula em suas explosões sinceras do que o Alkmin ou o Serra em suas comedidas simpatias fabricadas. Porém, todavia, no entanto, essa sem-gracice tem a ver com o alardeado “amadurecimento da democracia”, contrariamente à tese da “infância da democracia” que diz o “poder e a política” do mestre Fernando Rodrigues, que defende a ridícula tese de que “são muitas regras e pouca liberdade”. A democracia e a curva à “esquerda” são evidentes nesse processo eleitoral. A democracia pintada como seriedade e representatividade conjunta de elementos definidores da movimentação econômico-social, e a “esquerda” como uma série de discursos que, habilmente, articulam necessidades imediatas e tecnicidades, numa espécie de xamanismo mecânico, na qual os temas que finalmente fazem parte das “agenda sociais” ainda aparecem sob o véu da dominação gerencial.

Desde Aureliano, Maluf, Afif e Caiado em 1989, os candidatos importantes criados e educados na tradicional direita burguesa e autoritária, vêm diminuído quantitativamente a ponto de, em 2010, não existirem. (“O FHC, o Alkmin, o Serra!”, lembraria você, com certa dose de razão, mas explico-me adiante). Embora que para muitos, ser de esquerda entre a década de 40 a década de 70 no Brasil fosse como queimar hereges na inquisição ou matar judeus pelo nacional socialismo – primeiro uma obrigação moral, depois um arrependimento forçado em função de uma frágil consciência e em seguida uma condenação vazia de significado prático – há que se considerar, por uma clareza de análise, que os candidatos do PSDB não são da mesma estirpe dos inicialmente mencionados (o que não os absolve de certas condenações maneiras). Pelo contrário, eles representam a culpa velada da direita no seu caminho inquisidor-eugenista em direção ao amadurecimento discursivo e de convencimento.

A esquerda é um espectro político que se constrói em um campo que apresenta um combate específico de discursos sobre determinadas ideias e temas. Não é em si, uma posição política, mas sim a esfera onde estas posições se contrastam em funções de temas comuns. Obviamente que sua aparente entrada na “agenda” não significa, para o Brasil, qualquer movimento de sua sociedade em direção à igualdade, à justiça social e à igualdade econômica.

Neste sentido, a tese é que, para o bem ou para o mal, o Brasil está se curvando à esquerda. Emprego, diminuição da pobreza, grande papel do Estado, alianças com setores e movimentos e políticas sociais são, desde sempre, tópicos daquele campo que contrapomos à direita. Há no horizonte outros elementos que se agregarão a esse campo, materializados na “onda verde” colombiana, na culpa sócio-ecológica europeia e na oportunidade aberta pela “eleição plebiscitária”.

A critica do Marx no 18 brumário tem muito pouco a acrescentar na esfera da “esquerda” hoje. E os debates que, há 50 anos se travavam, mal se encaixam numa realidade que precisa de uma releitura radical para que novas e fortes oposições surjam.

DEBATE

José Serra e seu inicio pouco elegante em sua tese sobre o CcO (Corpo com órgãos), fez uma analogia (porque metáfora é coisa do lulismo) dos três temas inicialmente propostos com “3 órgãos do corpo humano”. Mais infeliz do que a ideia da analogia foram os exemplos dos órgãos: “coração, fígado e intestino”. Que o candidato não tenha em mente as ideias de Artaud ou Deleuze, ainda se desculpa, mas o fato de um ex-ministro da saúde, ao invés de citar cérebro e pulmão, cite “fígado e intestino” é, no mínimo, deselegante. Fica a pergunta sobre o paralelo entre a função do intestino e da educação ou do fígado e da segurança (pressupondo que a saúde é o coração).

O candidato da “direita” resume seu trajeto político na base da coleção “primeiros passos” da editora “política para iniciantes” dizendo de sua presidência na UNE, da participação na JUC (onde “saindo da adolescência” conheceu o candidato mais à “esquerda”), da sua participação na constituinte, na estabilidade econômica e nos programas sociais. Marina (a candidata na nova alternativa) lembra que foi do PT, prega o “realinhamento histórico” contra as divergências, e prega o trabalho junto entre os representantes da “direita” e da “esquerda”. O candidato da “direita” termina respondendo: “Marina, eu to muito na sua linha”.

No debate, acabaram com o Paulo Freire, minimizaram a reforma agrária louvando a agricultura familiar, assassinaram a ética, elevaram o crack à política de juventude. Marina sempre graciosa, chamando o Tarso Genro de amigo e o Plínio de humanista e professor, apela pela convergência e realinhamentos dos temas e políticas prioritárias, embora tenha tido uma recaída Durkheimiana na tese do “adoecimento da sociedade”. Mas tudo em casa.

O que se iniciou depois do Estado novo, com uma nova configuração para a mobilização trabalhadora, uma nova visão de Estado, uma outra concepção de cultura nacional, uma descoberta de recursos materiais e simbólicos e novas oportunidades para o desenvolvimento econômico, desemboca no falatório esperançoso do Janguismo e não se surpreende com o golpe de primeiro de Abril (ou a Revolução de 30 de Março, dependendo se você é de direita ou de esquerda).

Após a igreja se cindir entre a JUC e a TFP, a esquerda se dividir entre todas as combinações possíveis das letras do alfabeto de AP ate VPR e os comunistas se firmarem em algum lugar entre a Albânia e a Tcheco-Eslováquia, no ABC (como se o simples pedagogismo nos fizesse compreender melhor), o filtro da voz de milhares captura o ouvido dos de boa vontade.

ANTI-TESE

A anti-tese é a de que existe algo como o lulismo.

Era mais do que evidente (e hoje se pode afirmar com certa serenidade de espírito) que a igreja, os intelectuais inconformados – sim! Existem os que se conformam! – e os trabalhadores (onde eles estavam até agora????) dariam um passo para além dos desgostos do exílio, das aventuras armadas e do tropicalismo festeiro. E foi o que aconteceu.

O mais importante projeto político que desabrochou, depois da ditadura, foi sem dúvida a dinâmica oferecida pelo partido dos trabalhadores. Enganam-se (ou tentam enganar) aqueles que apontam o lulismo como marco do atual magnetismo político. Na última eleição, dos 4 principais candidatos, 3 eram ou foram do Partido dos Trabalhadores. Na eleição deste ano, a proporção é a mesma. Mesmo sem contar o Zé Maria do PSTU e o Rui Costa do PCO, 71,5% dos mais bem politicamente representados nos últimos processos de eleição, algum dia foram do PT: Marina, o Plínio, a Heloisa Helena, o Cristóvam Buarque, o Lula e a Dilma.

De novo, repito que, de modo algum, na minha opinião, isso seja determinante para a saída honrosa de um Capitalismo bárbaro e assassino que perpetua a dominação através da domesticação. Mas negá-lo é tão inconsistente quanto querer “não querer” o poder ou buscá-lo pela via militar com o argumento que guerreamos pela paz.

O próprio Lula, diversas vezes já disse que é somente o porta voz, o resultado, o produto deste campo político que, herdeiro do comunismo, do sindicalismo e do catolicismo, deu nova face a política brasileira desde 1980. O tal lulismo pode até manter de pé uma aparente força centrífuga dentro do partido, mas sem dúvida, não responde a uma minuciosa análise política sobre o atual estado dos debate no Brasil. O campo político no Brasil, finalmente, é direcionado por uma conjunção que hoje, proporciona um debate da e na esquerda. Existem aqueles que defenderão a propriedade da coordenada espacial para si, porém, se dependesse da exclusividade do discurso e da garantia da verdade, tudo seria menos divertido.

De qualquer maneira continua deprimente, decadente e indecente a cobertura jornalística. E alentador saber e verificar que as garras das empresas de mídia (sem subestimar seu poder) já não podem fincar em todo o terreno (mais uma vez, a razão ao Lula que, mesmo que não quisesse, apostou mais numa proposta e ação política do que delegou a culpa na oposição – por mais forte que ela possa rugir). O Boechat fazendo cara de repolho estragado depois das respostas da Dilma e de criança na apresentação do palhaço pimpão após as respostas do Serra é mais do que evidência do nível pré-sal que a mídia pode chegar em termos de dignidade e responsabilidade sobre a concessão pública que recebe.

UM ABRAÇO FERVOROSO

Símbolo disso, é a tentativa de ridicularização do Plínio, como se fosse um candidato qualquer de um partido pequeno. Sobre o partido, me abstenho das opiniões (meu apreço pelo Chico Alencar não me permite sequer iniciar a escrever minhas impressões sobre o PSOL).

É óbvio que não esquecem, mas nunca é demais lembrar. Plínio é representante político desde 1962, deputado federal constituinte, foi chefe da casa civil de Carvalho Pinto (sim, a rodovia já foi governador. Não confundir com Ayrton Senna), relator do plano de reforma agrária do Jango, constante consultor das Nações Unidas, coordenador da campanha mais bonita que a esquerda já fez nesse país (Lula, 1989), candidato a governador de São Paulo em 1990, dentre muitas outras coisas. Um homem católico que fez mais pela sua crença solidária e pela sua ideologia do que você jamais pensara ser possível fazer.

Meu abraço caloroso, fraterno e fervoroso vai pra ele.

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comentários
  1. Lembra (com saudosismo, óbvio!) as reuniões de UEE, UNE… revolução ou reforma… Bom saber que a visão não embaça!!!

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