puta, mãe, hooker, menina, candida erendira

Publicado: junho 19, 2010 em devaneio
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Há um tempo atrás, e lá se foi quase um ano, comecei a escrever aqui um devaneio sobre um filme que assisti na mesma época em que li um livro. não era a mesma história, nem mesmo autor, nem mesmo contexto. mas algo me levou a pensar numa comparação entre estas experiências textuais e imagéticas.

numa mesma semana assisti ao filme monster  – odeio este titulo – e li o conto do gabo, candida erêndira … o filme foi por acaso, o conto não. mas, coincidentemente, os dois de alguma forma tratam da prostituição e das vidas de duas meninas-mulheres que parecem ter destinos marcados de desgraça e sofrimento. e tratam de uma forma dolorida. os títulos das obras já dizem bastante. “a triste história” com a tal da “avó desalmada” e “monster”, ao qual, no Brasil, ainda foi acrescentado “desejo assassino”, o que não poderia deixar pior o título.

aparentemente descabida a comparação entre estas duas estórias, mas a questão é que ambas me fizeram pensar especialmente na experiência da prostituição. para as duas meninas-mulheres, Aileen wuornos (the monster) e cândida erêndira, a labuta do sexo é um verdadeiro purgatório. a primeira começa a se prostituir aos 13, era pobre, usava drogas, enfim uma histórias que se repete em muitas ruas, clubs, zonas de prostituição do mundo inteiro. a segunda provavelmente começa tão adolescente quanto, obrigada pela avó a pagar uma dívida que jamais teria fim. a cândida prisioneira passava dia após dia oferecendo compulsoriamente seu corpo, seu trabalho, sua doçura aos homens que pagavam. Aileen era apaixonada por uma mulher, mas saia com os caras para pagar suas contas até que se cansou e passou a assassiná-los.

neste momento, minha questão não é estética, ou literária, ou cinematográfica, mas talvez sócio-antropológica, acerca da representação e realidade da prostituição. o sexo de alguma forma acaba sendo representado como um castigo para as mulheres, o purgatório, algo que leva à loucura e ao crime. a representação da vida sexual representada na vida das putas acaba causando um tipo de náusea em relação ao sexo. são sempre descrições bastante naturalistas (não necessariamente realistas). algo me faz lembrar o cortiço de aluísio de azevedo.

certa vez uma profissional do sexo — puta, mãe e esposa — comentou comigo que conhecia muita mulher que que trepava com qualquer um por nada e ela questionava qual seria o problema dela tornar o sexo um trabalho? por que ela não poderia cobrar por seus serviço? ela preferia vender seu corpo no mercado do prazer que oferecer suas mãos, pernas, pele a qualquer um que quisesse pagar por serviços de trabalho doméstico em casa de madame.

talvez não fosse o caso de aillen. cândida não tivera escolha. e provavelmente a história de muita trabalhadora do sexo seja tão trágica quanto a de aillen, ou tão poeticamente dura e triste como a de cândida erêndira. mas estas representações das realidades das putas deixam algo de fora. e não vou entrar na discussão sobre tráfico de meninas, o que é bastante duro e inquestionável a crueldade presente. nestas representações, seguem sem destaque ou ausentes a coragem das putas ao trabalhar com o corpo e a sexualidade, a desenvoltura com o sexo, a postura provocativa e altiva para tentar manter alguma auta-estima depois de tanto estigma e preconceito sofrido.

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comentários
  1. mari machitte disse:

    é isso Let,
    uma ótima constatação… da literatura, e da realidade…

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