caleidoscópio de história caboclo-caipira

Publicado: abril 7, 2010 em relatos, trocas textuais
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Este texto abaixo foi escrito por uma mulher muito especial, sensível e forte. Minha mãe. Que nasceu entre as matas, campos e rios do mato-grosso, viveu no interior de são paulo, sabe como vivem caboclo(a)s e caipiras, e hoje vive na capital. Todos estes espaços lhe proporcionaram diferentes experiências e conhecimentos. Este texto fala um pouco disso. É por isso e por outras que odeio quando paulistano enche a boca pra usar a palavra caipira de forma pejorativa (eu posso!). Quem nunca foi caipira não têm idéia da sensibilidade caleidoscópica, experimental e nativa daqueles. E segue o texto! (o título é interpretação minha)

“Deixei o tempo passar, não me preocupei em aprender a língua culta que a sociedade acadêmica e os governantes iriam cobrar. Afinal, a roda da vida gira, a sociedade transforma e precisamos estar atentos, esquecer ou sufocar toda uma história construída num mundo tão distante deste que vivo hoje.

Trouxe comigo o som da língua nativa, seu sotaque simples do mundo que nasci e cresci. Corri pelos campos brincando com meus irmãos, colhi frutas silvestres, tomei leite saído direto da fonte (da teta da vaca). Cresci observando a beleza do tucano, da arara, o quero-quero chato e barulhento, mas que nunca encomodava, nadei nos rios e córregos que cortavam o meu mundo, mundo esse que chamava Campo Novo. Pesquei! Não, os peixes não eram uma iguaria apreciada por um nativo matogrossense. Nem anzol ou qualquer outro apetrecho de capturar peixe nós tínhamos. Como dizia meu velho pai, “numa dessas vocês podem pegar a mãe d’água”. Como ela era? Não sei, mas sabia que ela existia. Andei pelas bordas da mata, nunca em seu interior. As vozes da mata dão medo. O assobio do saci, o sussurrar dos espíritos da floresta, o aviso dos pássaros de que seres estranhos estavam chegando, provocavam arrepio e um certo respeito. Como entrar na morada dos animais, pássaros e sacis sem permissão? Precisa ter todo um conhecimento daquele mundo cheio de mistérios e histórias fantásticas. “Cuidado com a mata, vocês pensam que é calma, é melhor não incomodar quem vive lá”. Quem nos dizia isso? Meu pai, minha mãe, dois caboclos cheios de histórias e superstições. “Cuidado com a mata, ela é cheia de mistérios”. Quais?, perguntávamos nós. “Muitos, mas vou contar um…” e iniciavam uma história sobre a mata, história verdadeira! … na minha infância sim! Hoje só recordações, todas tão distantes.

Essa cidade grande, barulhenta, que obriga as pessoas a esquecerem suas histórias para viver, que exige trabalho, estudo, mesmo quando não seja necessário, mas você tem uma linha a seguir, determinada por uma sociedade de excelência; o que sabem esses “doutores” da pedagogia? Toda criança ou jovem tem uma mesma história? Uma história construída para satisfazer uma classe dominante. Os seres humanos perderam suas raízes, esqueceram suas histórias, e correm atrás de um imaginário que alguém inventou ou que foi necessário para sua sobrevivência em determinado momento. Mas tudo é momento, depois perde o sentido a não ser que alguém dê vida e retome aquele momento fazendo as pessoas vê-lo como algo novo, fantástico. É como um caleidoscópio, as cores são as mesmas mas você olha e gira e se encanta com as novas formas.”

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