O que há de semelhante entre “Aya de Yopougon” e “Persépolis”? Duas histórias em quadrinhos escritas por mulheres de quase a mesma idade, originalmente de países ditos de terceiro mundo — como a própria Marjane Satrapi descreve sua experiência — e que representam em suas novelas e memórias algo intenso de seus lugares de origens, mas já a partir de sua vivência no dito primeiro mundo — nos casos das duas, a França. Mas isso não resume estas duas titãs dos quadrinhos!

Marjane Satrapi (1969-), autora de Persépolis, narra suas memórias desde a infância (primeiro volume) até quando parte definitivamente para viver na França em 1994. O trabalho de Satrapi é bastante conhecido, recebeu vários prêmios e uma versão em animação que se manteve bastante fiel ao traço da cartunista iraniana. E que há que se dizer que ela encontrou um estilo próprio muito marcante, sempre em PB, aparentemente simples e por isso mesmo de uma intensidade incrível. E até agora só conheço dois dos quatro volumes de Persépolis — e Marjane é uma ilustradora/escritora producente, veja a bibliografia dela.
Completamente diferente de qualquer estilo encontrado em HQs por ai. Além de divertido, seu trabalho é também uma fonte de leituras históricas e antropológicas. Através de seus quadrinhos vemos o Iran antes da revolução islâmica, conhecemos um pouco da história da própria Pérsia e sua mitologia, as guerras com o Iraque, a relação com o ocidente, a experiência de ser mulher num país islâmico e ao mesmo tempo de ser uma mulher iraniana na europa ocidental. E todo este background da autora, incluindo especialmente o fato de ser mulher, imprime algo extraordinário em seu trabalho. As caricaturas criadas são ao mesmo tempo engraçadas e dramáticas e as mulheres são caracterizadas com muita sensibilidade, a ponto de criar uma identidade aparentemente não existente com esta leitora — ainda que além da humorística sensibilidade feminina que me toca, talvez a experiência de sair de um país “periférico” e viver na europa seja algo que de alguma forma sempre cause esta sensação de identidade entre os imigrantes.

Aya é uma personagem criada por Marguerite Abouet (1971-), autora da novela de mesmo nome da personagem, ilustrada por Clément Oubrerie. Abouet nasceu na Costa do Marfim (África Ocidental) e aos 12 foi enviada com o irmão mais velho para estudar na França sob os cuidados de um tio. A Costa do Marfim se tornou independente da França em 1960 , no bojo dos movimentos de independência dos países africanos, história ainda bastante recente. A história de Aya se passa em 1978, quando a Costa do Marfim, sob a presidência de Félix Houphouët-Boigny parecia prosperar aos olhos do mundo – mais uma vez uma prosperidade para poucos. A história de Aya retrata esta época que faz parte das memórias da infância de Abouet em Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim e aparentemente capital econômica do país (a capital política é Yamoussoukro). As personagens principais vivem no bairro de Yopougon (traduzido para o inglês como Yop City), um bairro de classe trabalhadora, como o próprio personagem “patrão” descreve o lugar. Abouet já escreveu quatro volumes sobre a história de Aya, o último publicado em 2008 em francês e em inglês o terceiro volume foi publicado em 2009. Até agora só tive a oportunidade de ler em inglês e os dois primeiros. Quem ilustra as novelas de Abouet é seu companheiro, Clément Oubrerie , que tem um trabalho fantástico, muitas ilustrações de livros infantis, um desenho rico em cores, o que da uma característica muito bacana à Aya de Yopougan! Abouet e Oubriere juntos, na texto e no desenho, representam uma estória especialmente sobre a vida de três jovens amigas na Costa do Marfim com uma sensibilidade incrível. E eis ai outra similaridade com Persépolis! Satrapi e Abouet&Oubriere fazem com que vivenciemos outros lugares, sua cultura, sua história e suas estórias, mal-imaginados e mal-representados por certas mídias, mas magistralmente trazidas à tona por estas duas mulheres.

Não deixaria de comentar que Satrapi era de uma família rica e “esclarecida”, intelectualizada e de “mente aberta”, como ela mesma descreve; o que quero dizer é além de todas as diferenças e auteridades, ocidente/oriente, relações de gênero, me pego analisando questões de classe, ainda que este conceito mereça um zilhão de críticas, ainda é algo que emerge em minha mente. Marjane era de uma burguesia esclarecida, estudou em um Liceu francês na Áustria, onde sofreu preconceitos por ser uma imigrante, viveu alguns meses na rua depois de uma frustração amorosa; mas ainda assim parecem mais aventuras de uma adolescente que pode depois de toda sua saga teenager voltar para casa e ter a proteção dos pais, que tentam manter sua liberdade sob o repressivo regime islâmico iraniano entre 80 e 90. E quando isso não é mais possível, patrocinam a ida de Marjane para a França, onde incrementou seus estudos de arte, vindo a se tornar ilustradora de publicações famigeradas como o The New Yorker e o The New York Times. A outra heroína-personagem da Costa do Marfim, Aya, é uma jovem que gostaria de ser médica mas o pai acha que estudo não é coisa para mulher; a amiga engravida sem confirmar quem é o pai e vai trabalhar vendendo doces no mercado; os conflitos de classe e gênero estão sempre presentes e concomitantes, evidentemente, pois o espaço central da estória é o “bairro operário” de Yopougon. Mas os conflitos de classe são representados em Persepólis em vários momentos, e de uma maneira bem sarcástica, inteligente e verdadeira, do ponto de vista de alguém que é crítica, aparentemente de “esquerda”, mas que nunca foi classe operária, ou nunca compartilhou desta identidade. Ressalto esta questão, mas isso, ainda que pareça, não é uma crítica a um ou a outro trabalho, apenas uma constatação para reflexões futuras.

Quanto às experiências de ser mulher num mundo que sempre de um jeito ou de outro, direta ou indiretamente, seja na África, no Oriente Médio, na Europa ou na América, acaba por restringir seus movimentos, Marjane e Abouet são magistrais em suas narrativas. Tinha acabado de ler dois volumes de Persépolis e queria conhecer mais HQs escritos e/ou ilustrados por mulheres — devido ao que Satrapi causou em mim –, mas isso é uma empreita realmente difícil. Estava quase frustrada na biblioteca do bairro (Peckham-Londres), onde se pode ver até que uma coleção de HQs considerável, quando encontrei Aya. Depois de ler os dois volumes de Abouet, vi por ai que ela se inspirou em Marjane Satapri para começar a escrever suas novelas . E eis mais uma ligação entre estas duas mulheres de HQ!

E se alguém tiver, continuo a procura de HQs escritos e/ou ilustrados por mulheres! Mas também valem as dicas de autorxs legais de qualquer gênero!

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